Vasos de cerâmica do século XIX revelam desigualdade social na dieta do Brasil



Vasos de cerâmica do século XIX revelam desigualdade social na dieta do Brasil

Pesquisa da Universidade Autônoma de Barcelona analisou resíduos de comida em peças usadas na Baía da Babitonga, Santa Catarina, há mais de um século.

Mais de 180 vasos de cerâmica do século XIX, usados no litoral de Santa Catarina, guardavam dentro do próprio barro a prova de quem podia comer peixe fresco e quem sobrevivia do que sobrava.

Uma pesquisa de arqueologia molecular reconstruiu o cardápio de indígenas, afrodescendentes, luso-brasileiros e imigrantes alemães e mostrou como a comida denunciava a posição de cada família na sociedade brasileira.

O que os vasos de cerâmica do século XIX revelaram sobre a comida no Brasil

Vasos de cerâmica do século XIX usados na Baía da Babitonga, em Santa Catarina, guardavam resíduos de peixe, marisco, milho, mandioca, arroz, carne e até ovo de galinha. O padrão mudava conforme a origem étnica e a condição social de quem usava cada peça.

Como cientistas descobriram o que havia dentro de cada vaso

A técnica de lipídios e proteínas

Cientistas do Instituto de Ciência e Tecnologia Ambiental da Universidade Autônoma de Barcelona (ICTA-UAB) analisaram lipídios em mais de 180 fragmentos e proteínas em parte deles. A combinação das duas técnicas mostrou o que cada vaso guardou há mais de um século.

O detalhe que a maioria ignora aqui é que resíduo microscópico de comida sobrevive no barro poroso da cerâmica, mesmo depois de décadas enterrado.

Peixe, marisco e milho: o cardápio de indígenas, afrodescendentes e luso-brasileiros

Vasos moldados à mão, ligados a indígenas, afrodescendentes e luso-brasileiros, concentram resíduos de peixe, marisco e milho. Esses alimentos vinham do mar, um recurso mais acessível para quem tinha pouca terra e pouco capital.

  • Peixes da família Sciaenidae aparecem com frequência nessas peças.
  • Marisco e frutos do mar completam o cardápio marinho.
  • Milho e mandioca formam a base vegetal do dia a dia.
Vasos de cerâmica do século XIX revelam desigualdade social na dieta do Brasil
Foto: ICTA-UAB

Carne, laticínios e cultivos: a dieta dos imigrantes alemães

Cerâmica torneada, usada principalmente pelos imigrantes alemães, mostra outro padrão. Essas peças guardam resíduos de carne, laticínios e cultivos de terra firme.

  • Carne bovina aparece com destaque nas peças torneadas.
  • Laticínios surgem em parte dos fragmentos analisados.
  • Arroz completa a base terrestre da dieta, ligada ao acesso a lotes próprios.

Por que a diferença no prato expõe a desigualdade social do século XIX

A diferença entre os cardápios não vinha só de costume ou cultura. Ela também vinha de quem tinha acesso a terra, gado e mercado.

Pesca e recursos costeiros eram a alternativa de sobrevivência para famílias com menos propriedade. Na prática, o que esse achado expõe é que a mesa de cada família já denunciava sua posição na hierarquia social do século XIX.

O que sobrou no fundo do vaso ainda define a mesa brasileira

Os vasos de cerâmica do século XIX contam uma história que nenhum documento escrito registrou. Peixe para uns, carne para outros: a receita de cada casa seguia a régua da desigualdade.

Essa mistura de influências indígenas, africanas, portuguesas e alemãs explica por que a culinária brasileira muda tanto de região para região. O prato mudava conforme a origem. A fome, não.

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