Cidade bizantina preservada no Egito é encontrada no oásis de Dakhla



Cidade bizantina preservada no Egito é encontrada no oásis de Dakhla

Túmulos de Marina el-Alamein tinham línguas de ouro na boca de alguns corpos | Foto: Divulgação

Uma cidade bizantina preservada no Egito acaba de ser confirmada no oásis de Dakhla, no Deserto Ocidental do país. O sítio, batizado de Ain Al-Sabil, expõe uma basílica, uma fortaleza e cerca de 200 registros em cerâmica com 1.600 anos.

O anúncio saiu no dia 4 de julho, dias antes de Dakhla entrar de vez na Lista do Patrimônio Mundial da UNESCO.

A descoberta não é isolada, o Egito atravessa dificuldades financeiras e aposta pesado no turismo arqueológico como fonte de moeda estrangeira, ao lado do Canal de Suez.

Cada nova cidade bizantina preservada vira também vitrine para atrair visitantes ao Deserto Ocidental, região historicamente ofuscada pelas pirâmides de Gizé e pelos templos de Luxor.

Basílica organiza o traçado urbano

O ponto mais alto do assentamento é ocupado por uma basílica cristã, erguida em meados do século 4. Segundo o Conselho Supremo de Antiguidades, o templo funcionava como referência tanto religiosa quanto comunitária para os moradores.

Vias principais no sentido norte-sul cruzam ruas menores no eixo leste-oeste, formando praças e espaços públicos, desenho que indica planejamento urbano deliberado, e não um povoado que cresceu de forma espontânea.

Casas de tijolo de barro, fornos de pão, cozinhas e ferramentas de moagem completam o quadro doméstico. Duas torres de vigia e uma fortaleza de muralhas espessas garantiam a defesa do local.

Curiosamente, uma das residências, atribuída a um morador chamado Tabibos, pode ter funcionado como igreja doméstica antes da basílica existir, um testemunho raro do cristianismo no oásis em fase ainda inicial.

Óstracos revelam economia do século 4

Os quase 200 óstracos formam o achado de maior valor histórico do sítio. Escritos em copta e grego, os fragmentos de cerâmica registram compras, vendas e correspondências pessoais.

Para os pesquisadores, o material funciona como retrato direto da economia e das relações sociais de uma comunidade que viveu no interior do deserto egípcio há 16 séculos.

Moedas de ouro datam a ocupação

Moedas de bronze com retratos de imperadores bizantinos, inscrições em latim e símbolos cristãos também apareceram nas escavações. Entre as peças mais raras está um conjunto de moedas de ouro do reinado de Constâncio 2º, que governou entre 337 e 361 d.C.

Esse grupo de moedas ajuda a fechar a cronologia do assentamento e confirma que a fase bizantina foi o principal período de ocupação do local.

Moedas de ouro do imperador Constâncio º achadas no Egito

Moedas de ouro do reinado de Constâncio 2º ajudam a datar a ocupação do sítio | Foto: Divulgação/Ministério do Turismo e Antiguidades do Egito

Túmulos com línguas de ouro intrigam

No mesmo comunicado, o Ministério do Turismo e Antiguidades revelou outro achado a quase 700 km de distância: 18 túmulos novos em Marina el-Alamein, perto de Alexandria, elevando para 48 o total de sepulturas já mapeadas no sítio.

Parte dos corpos foi enterrada com pequenas línguas de ouro colocadas na boca amuletos que, segundo a tradição funerária local, davam voz aos mortos no além. É um contraste forte, enquanto Dakhla fala de vida cotidiana e comércio, Marina el-Alamein fala de ritual e crença sobre a morte.

Turismo sustenta economia do Egito

Hisham el-Leithy, secretário-geral do Conselho Supremo de Antiguidades, e Mahmoud Massoud, à frente da missão em Dakhla, conduzem as escavações que continuam em andamento.

Já Diaa Zahran, chefe do departamento de Antiguidades Islâmicas, Coptas e Judaicas, coordenou a análise dos óstracos. O oásis já figura na Lista Indicativa da UNESCO, passo que precede a inscrição oficial como Patrimônio Mundial, reconhecimento que tende a acelerar ainda mais o fluxo de visitantes à região.

A cada nova campanha, o sítio de Ain Al-Sabil reforça sua posição entre os assentamentos bizantinos mais completos já encontrados no Deserto Ocidental egípcio. E, para o Egito, cada basílica ou moeda desenterrada vale tanto quanto qualquer relíquia faraônica na disputa por turistas e por divisas em meio à crise que pressiona o país.


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